O Bruno é o namorado mais impecável que a Cláudia alguma vez teve e possivelmente irá ter. Trata-a como uma princesa, faz tudo o que ela quer (e que acha razoável), nunca a deixa na mão, dá-lhe atenção q.b., não a troca pelos amigos (been there, done that), aceita-a como ela é, com o seu passado, e os seus defeitos, e as suas ideias malucas (been there, done that), nunca se esquece dela (been there, done that)... enquanto namorado, no Bruno, a Cláudia não podia pedir absolutamente mais nada!
Só que o Bruno também é preguiçoso e falta-lhe muita ambição. Não faz nada e também não parece querer fazer. É muito "deixa andar", não tem sonhos, não quer nada out of life, não se esforça para nada. O Bruno está à procura de trabalho há 5 ou 6 meses, depois de ter chumbado o ano e ter ficado com o 12º incompleto porque "não gostava de estudar" e porque era demasiado preguiçoso para se levantar de manhã e ir às aulas. O Bruno não está em posição se ser picuinhas, mas é. Não gosta disto, não gosta daquilo, não quer fazer X, não quer fazer Y, acha que é uma diva e que as pessoas é que precisam dele para trabalhar, e não o contrário, ele não precisa de ninguém para trabalhar. O Bruno fica contente quando entrega 30 curriculos no centro comercial num dia, sente-se realizado, não percebendo que isso não vai valer de nada, e por muito que a Cláudia lhe diga que é mais provável conseguir algo respondendo ao máximo de anúncios pela net, ele ainda tem a lata de dizer "isso não é o meu género, prefiro entregar pessoalmente nas lojas", lá está, ele é demasiado importante, não vai rebaixar-se ao ponto de fazer o que não gosta, pois claro está. O Bruno quase nunca tem dinheiro para ir ter com a Cláudia, sequer. É sempre a Cláudia que paga as coisas ao Bruno, seja para ir ter com ela, seja porque ela está farta de estarem sempre em casa e querer sair, seja para ele ir entregar mais curriculos. A Cláudia inscreveu-o em 26 empresas de trabalho temporário e perdeu um dia inteiro nisto. A Cláudia - com a devida autorização, claro - vai ao email do Bruno todas as noites enviar curriculos para aqueles sites de classificados online. A Cláudia vai com o Bruno às entrevistas, preenche as fichas de inscrição por ele porque "a caligrafia dele é feia" e a dela é bonita, a Cláudia diz como é que o Bruno tem de falar e estar numa entrevista para causar boa impressão. A Cláudia é, basicamente, mãe do Bruno.
Mas a Cláudia não quer ser mãe do Bruno, quer ser apenas e só namorada dele, e sinceramente está a ficar farta dessa situação. A Cláudia não quer ter de se preocupar com o que não tem que se preocupar, melhor, a Cláudia não tem de achar que o facto de sair de casa e conquistar o mundo é mais importante do que o Bruno.
Mas o Bruno continua, na mesma. Recusa trabalhos por causa dos horários, por causa da localização, ou simplesmente porque era num armazém onde implicava ele ter de subir escadotes e ele tem medo das alturas. E, como sabe que eu vou dar-lhe na cabeça por causa disso, esconde sempre essas situaçõezinhas, eu tenho de descobrir por outros meios. E, várias noites, depois da Cláudia estar HORAS em frente ao pc a inscrever o Bruno em ofertas online, quando liga ao Bruno a esclarecer essa situação, ele diz "mas eu faço, eu faço, eu inscrevo-me", mente com todos os dentes que tem na boca. "Não pressiones", diz ele, então a Cláudia resolve então não pressionar para ver se é isso que funciona, semanas depois de não-pressionar, a Cláudia volta ao email do Bruno e vê que ele, que teve todos esses dias de todas essas semanas livres e sem nada para fazer, não se inscreveu numa única oferta, muitas vezes nem sequer abriu o mail, então a Cláudia diz "se eu não te pressionar tu não fazes nada". Ele diz "eu faço", e assim se dizem duas mentiras num espaço de 5 minutos. É tão irritante e frustrante para a Cláudia quando ele diz isso, porque é contrariar o óbvio. É como se lhe perguntassem "de que cor é esta banana", e ele dissesse "é azul".
A Cláudia resolveu não pagar nada da celebração do 1º aniversário de namoro, porque já estava farta de pagar tudo. Na verdade, a Cláudia estava a querer testar o Bruno, a ver se ele assim reagia, se caía em si de uma vez por todas, mas o Bruno não reagiu nada, porque por ele basta-lhe estar com a Cláudia, mesmo que seja uma semana seguida em casa a comer, a foder e a ver televisão, ele só quer estar com a Cláudia, mais nada. A Cláudia resolve, de vez em quando, fazer fita e chorar, até o Bruno prometer que vai mudar, mas nunca muda nada. A Cláudia já chegou ao ponto, e mesmo que lhe doesse mesmo muito, de dizer que ia acabar com o Bruno se ele não mudasse de atitude. Ele não mudou nada. Mas prometeu. Ou mentiu. E a Cláudia não tem coragem de acabar com ele, porque gosta demasiado dele, porque está demasiado apaixonada, porque a vida já não faz sentido sem ele, porque não acha que "trabalho" e "dinheiro" sejam razões válidas para acabar um namoro com todas as coisas óptimas que eles têm, se bem que essas não seriam as razões verdadeiras, mas sim, a grande razão seria "porque eu quero algo da vida que tu não queres e assim não vale a pena investir emocionalmente numa coisa que não vai dar no futuro". A Cláudia está, por assim dizer, cega pelo amor, ou pela paixão, ou o que seja que lhe queiram chamar, a Cláudia prefere continuar porque, de momento, no imediato, este namoro dá-lhe mais vantagens do que desvantagens. Mas a Cláudia também tem momentos de clarividência, como agora, por isso é que está a escrever na 3ª pessoa, a ver-se de fora, a sua figura estúpida e de idiota. Sente muitas vezes que se acomodou por achar que não vai encontrar alguém melhor para ela, e que vai ficar meses a chorar se isto acabar.
O Bruno ouve sempre tudo o que a Cláudia diz, dá-lhe sempre razão, na maioria das vezes calado, nunca contesta, só muito de vez em quando diz que eu estou a tentar mudá-lo. Mas a Cláudia não está a tentar mudá-lo. Ela está apenas preocupada com o futuro dele e, sobretudo, com o nosso, se houver um nosso.
Nesta altura do campeonato, o facto de ele trabalhar ou não não me faz grande diferença. Quero lá saber se ele está a estudar ou a trabalhar na Worten, ou num call-center merdoso. O que me faz diferença, é a atitude. Só a atitude em si. É o eu pensar no futuro e chegar à conclusão que nunca ía funcionar, que eu a uma certa altura iria querer a minha independência, iria querer viver com o meu namorado, iria querer construir a minha vida, mas em vez disso, ía ter uma espécie de filho, que não fazia nada, que ficava o dia todo a ver televisão, que eu ía bancar tudo. O Bruno acha que isto não vai acontecer, mas se ele não mudar de atitude é o que vai acontecer mesmo. E eu não quero ter um filho agora, e não quero ter um namorado que, apesar de fantástico em todos os aspectos que "namoro" implica, me faz pensar demasiadas vezes que ele não é o homem da minha vida e que, se assim é, porque estão então a alimentar uma relação assim. E eu quero estar numa relação em que penso que ele é o homem da minha vida, como muitas vezes já pensei com o Bruno (e muitas vezes ainda penso).
Porque é que eu me sujeito a isto, pergunto eu? Porque eu nunca desisto. Eu nunca desisto de nada. Lá está, uma das grandes diferenças entre nós. Eu não vou desistir enquanto ele não meter na cabeça que tem que deixar de ser mimado e picuinhas e fazer alguma coisa da vida, nem que seja vê-lo a responder a anúncios na net sem eu ter quase de o obrigar. Mas, acima de tudo, porque o amo. Porque gosto mesmo muito dele. Porque quando nos beijamos o mundo pára. Porque o abraço dele é um dos melhores sítios onde posso estar no mundo. Porque não me larga quando eu estou amuada, enquanto eu não sorrio. Porque nunca desiste de mim. Porque mais ninguém iria partir-me os ben-u-rons quando eu estou doente, ou vir para minha casa de propósito quando estou a sentir-me carente, ou acordar-me com uma torre de panquecas com chocolate e morangos, ou acordar durante a noite para me ir buscar coisas se eu pedir. Porque me sinto em segurança, em paz, quando estou com ele. Porque estou muito apaixonada. E a paixão é uma merda quando temos de parar e tentar pensar com alguma objectividade.
Porque é que eu tinha que me apaixonar por alguém que não quer o mesmo que eu da vida?
Faz-me confusão pessoas com esta atitude. "Só" isso. Faz-me confusão e sempre tentei "fugir" delas, o que acontece quando estou apaixonada por alguém assim? Been there, done that também, no passado, e não gostei.
Se há dias em que me apetece ficar com ele para sempre, outros há em que apetece-me espancá-lo, e bater com a cabeça dele contra uma parede, para ver se os parafusos vão todos ao sítio onde deviam estar.
O que é que eu faço? Não sei. E hoje escrevo isto, porque estou muito magoada. Muito mesmo. Estou quase a chegar a um limite.